Quando eu fiquei grávida, tinha um certo pensamento que sempre me rondava e meio que, como devo dizer, me desesperava. Sério, a ponto de me deixar com falta de ar.
Era quando eu pensava: caraca, mas como?
Assim, sem complemento mesmo. Como? Como eu ia fazer as coisas? Eu não sabia nada. Como eu ia saber as coisas? Como eu ia saber qual comida dar, se era pra dar comida, sequer se era fome... E se dorme, como faz? E quando? Onde? E como eu ia fazer pra descobrir como dar banho? E se eu não conseguisse dormir? E se eu não soubesse como era a cara da criança quando tem sono?
Sabe?
Eu tinha medo, pavor de não saber nada. De não saber como fazer.
Ouvi de muitas pessoas: na hora você vai saber.
Mas eu não sou dessas, né.
Nunca tive vontade de ser mãe (ou seja, nunca tive contato com um "mundo materno" pra ter ideia de como as coisas funcionavam), então não podia me contentar com "na hora você saberá". E acima de tudo sou uma cientista, uma pessoa interessada em saber como as catraca do mundo funcionam.
Então catei. Graças aos iluminados seres que guiam nosso planeta à evolução, temos uma coisa linda chamada "internet", que tudo informa, centraliza, esclarece...
Catei como se não houvesse amanhã, em blogs, sites e grupos do face.
Mas, ora que surpresa, minha salvação veio na forma de livro, daqueles com páginas em papel.
Chamava-se "Segredos de uma encantadora de bebês".
Gente, aquilo mudou minha postura com relação ao que eu estava vivendo. Eu estava tendo crises de ansiedade por não saber como iria lidar com os bebês (como dizia minha avó, estava que nem peru: morrendo de véspera) e aquele livro trazia tudo.
Quantas horas dorme um bebê.
Como fazer um bebê dormir.
Qual o tipo do seu bebê.
Pasmem: o livro tinha diversos roteiros de horários, inclusive um horário para mães de gêmeos, e técnicas adaptadas ao seu tipo de bebê (e um teste pra saber qual era esse tipo).
O método da Tracy Hogg incluía uma organização que cobria tudo: os horários pensados para você ter até menos trabalho para identificar os motivos do choro do bebê. E horários pra você dormir.
Gente... aquilo foi uma chuva de calma sobre meu ser.
Ali, naquele momento, eu vi e entendi uma grande verdade sobre minha pessoa: eu precisava de rotina. Eu preciso desesperadamente de planejamento. Eu tenho talento pra planejar, mas nunca tinha visto como eu precisava daquilo para ser uma pessoa capaz de realizar as coisas. De concretizar.
Planejei passo a passo todos os dias. Nenhum dia, depois que eles nasceram, até mais ou menos 8 meses, fugia dos horários.
Meu marido passou a me chamar de Fraulein!
Sim, como todos podem imaginar, pelo descascar dessa cebola, eu virei uma escrava da rotina. O método da Tracy era chamado EASY. E de Eat (comer), A de Activity (atividade), S de Sleep (dormir) e Y de You (você). Basicamente, a criança mamava e era mantida acordada por uns 30, 40 minutos. Depois, colocada para dormir, um soninho que durava 40 minutos a 1h, às vezes mais. Esse soninho seria o seu tempo, para dormir, ver TV, etc etc.
SÓ QUE... eram gêmeos. Até aí, nada demais. Ela tinha, no livro, uma tabela adaptada a gêmeos, que ainda deixava um tempo para descanso da mãe. Comecei a usar depois das 3 primeiras semanas. Foi ótimo, até que eles simplesmente decidiram que no tempo do Sleep, da soneca, um dos dois ficaria acordado. Sempre.
Ou seja: os dois mamavam por meia hora. Eu brincava com os dois por 40 minutos. Colocava um pra dormir. Sim-ples-men-te não conseguia colocar o outro. Esse espírito de porquinho ficava acordado até a próxima mamada, dali a 1h.
Aí mamavam. Brincávamos. O que tinha ficado acordado dormia facilmente. Adivinha? O outro permanecia acordado até a próxima mamada.
E eu? Apenas desespero se via na minha pessoa. Eu rezava, implorava, chorava. Eu não conseguia dormir. Eu raramente tirava uma soneca durante o dia. Eu estava o dia inteiro sendo sugada, literal e figurativamente. Eu tinha que me dar para eles, tanto em forma de leite, quanto de atenção, 24h por dia. Eu não conseguia dormir mais do que 3h direto.
Xinguei deus, mundo, entidades e quem passasse na frente, porque eu estava simplesmente exausta. Não somente pelo trabalho, mas pela esperança vã do "agora vai", sempre achava que naquela soneca eu ia botar os dois pra dormir, eu ia conseguir tirar uma soneca.
Nada.
Minha falta de calma e meu apego à rotina só criavam ainda mais stress. Eu acreditava que repetindo e repetindo alguma hora ia acontecer. E ainda tinha minha necessidade louca de prosseguir com a amamentação e tirar o complemento, criei mais uma demanda que eu não conseguia suprir, talvez pela própria necessidade de desviar a preocupação, talvez apenas pelo desespero.
Mas o que me faltava não era amamentar mais. Não era manter os horários rígidos. Me faltava outra coisa. A rotina é uma coisa indispensável e eu pude ver isso em diversas situações. O planejamento é necessário e sem ele não dá pra ter uma maternidade sã.
Eu precisava de uma coisa que a própria Tracy coloca no mesmo livro: uma rede de suporte. Alguém que falasse "Eu coloco o Pedro pra dormir e você coloca a Diana."
Não tinha quem ficasse com eles por mim. Mentira. Ter, até tinha. Mas ninguém se oferecia e eu não pedia. Quem eu achava que tinha o dever de me ajudar não tinha disposição. Quem teria disposição não tinha disponibilidade nem estava por perto. Quem estava por perto, eu excluía por achar que não devia imputar tamanha responsabilidade a uma pessoa que não precisava ter tanto trabalho.
Acabei ficando isolada e sobrecarregada. A própria rotina que nos impus não estava dando certo, porque eu sozinha não estava dando conta.
Resumo da ópera: não é porque você está gestando que saberá como ser mãe, não é porque você planeja que dará certo e sem uma rede de apoio a maternidade é MUITO DIFÍCIL.
Experiência própria.
Ah, e para quem achou essa uma história sem final: sobrevivi a este período, sabe como? Com a creche. Sim, só quando fizeram 8 meses consegui tirar uma soneca. Hoje vejo que segui tantas regras, tentei fazer tudo certinho... mas sozinha não fui capaz. Rotina resolve muitos problemas, mas sem ajuda ninguém faz nada.
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